3.5.11

Jornadas Sobre a Criação Artística na Comunidade - TEATRO ESPAÇO COMUM

Deixamos aqui a nossa comunicação das Jornadas do Teatro, organizada pelo Tempo d'Arte e que, correu muito bem. Foi bom poder passar um dia a falar de teatro, cultura, problemas e soluções da área, com pessoas que a vivem por dentro e a pensam.

Fomos convidados para integrar o 2º painel que visava a política cultural e a sua influência na criação artística.


Reflexão sobre a forma como as politicas culturais condicionam a criação artística

A criação artística é, naturalmente, condicionada pela políticas culturais. Estas podem motivá-la, fortalecê-la ou pelo contrário aniquilá-la.
Podemos distinguir duas perspectivas de encarar a criação artística:


• Uma de cariz mais comercial, mais popular, e naturalmente menos dependente de apoios e consequentemente menos sujeita às mudanças ou inexistência de políticas culturais.


• E outra, que depende em maior grau de uma definição clara de políticas culturais: objectos artísticos/culturais responsáveis, que provocam, estimulam, questionam o espectador.

Na Constituição da República Portuguesa pode ler-se que:


1. Todos têm direito à fruição e criação cultural, bem como o dever de preservar, defender e valorizar o património cultural.


2. Incumbe ao Estado, em colaboração com todos os agentes culturais:


a) Incentivar e assegurar o acesso de todos os cidadãos aos meios e instrumentos de acção cultural, bem como corrigir as assimetrias existentes no país em tal domínio;
(...)

O que temos vindo a assistir é a um progressivo desvincular do estado, quer ao nível nacional quer local, desta responsabilidade. Os agentes culturais, os criadores, os artistas têm vindo individual ou colectivamente, a colmatar esta falha que, constitucionalmente, pertence aos poderes políticos.


Ouvimos da parte dos responsáveis discursos inflamados sobre a importância da criação e a fruição artísticas para o desenvolvimento do ser humano, mas na verdade são apenas isso: discursos inflamados. Apesar de verdade (a criação e a fruição artísticas são fundamentais no desenvolvimento do ser humano), eles não acreditam seriamente no que dizem: o desinvestimento financeiro é crescente (apesar de contribuir com 2,8% do PIB nacional, a cultura continua a chorar o, cada vez mais distante, 1% do orçamento geral do estado), a precariedade e a instabilidade económica e social dos trabalhadores das artes mantém-se e cresce – continuamos sem protecção social, sem contratos de trabalho, sem direitos - e continua a não haver um mínimo de articulação entre duas áreas que deveriam andar de mãos dadas: Cultura e Educação. As políticas de uma área, muitas vezes, colidem com as da outra, impossibilitando assim um trabalho conjunto que nos parece essencial.


Outro entrave a uma verdadeira política de apoio aos agentes e à criação artística prende-se com a necessidade de protagonismo político, quer a nível central quer local. Não se prossegue o trabalho desenvolvido até ali pelo antecessor: deita-se tudo abaixo e começa-se de novo. Assistimos frequentemente a quebras de programas de apoio, à destruição de linhas de intervenção, a arbitrárias concessões ou exclusões de apoios. Esta situação gera desconforto, desconfiança, o que provoca um forte entrave ao desenvolvimento da criação e incentiva a fuga dos criadores para outras paragens causando danos irreparáveis na estrutura do tecido artístico.

Quer a nível nacional quer local, temo-nos deparado com a inexistência de políticas culturais que tenham em conta as especificidades de cada região, o Alentejo tem sido muito negligenciado no que toca a apoios nacionais, especialmente o baixo Alentejo. Políticas culturais que tenham em conta a realidade social dos trabalhadores das artes. É necessário delinear estratégias assentes na realidade, no dia-a-dia das estruturas, dos agentes, dos artistas, assentes nas dificuldades, nas ambições e nas possibilidades de cada um.

É preciso que os políticos percam a vaidade de criar uma política nova a cada quatro anos. Quatro anos não chegam para uma avaliação séria e concreta. É preciso unir a educação à cultura e não continuar a separá-las como se a cultura não educasse! É preciso pensar seriamente nas possibilidades que as artes oferecem em tantas áreas, como nos provam os projectos que teremos o prazer de conhecer hoje à tarde, com os participantes no terceiro painel. É preciso perder de uma vez por todas a visão mercantilista e comercial da cultura. O objectivo não é vender é fazer crescer quem dela usufrui.

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